Macacos

O imprevisível. Sempre ele.
Sempre do mesmo jeito, sempre inesperado.
Olho essa vida que me circunda,
esse trama à qual estou indefinidamente atrelado.
Essa novela mal escrita e sem grandes emoções.
Esse drama sem sentido nem lógica.
Olho essa vida e demoro a identificá-la como sendo minha.
Mas sei, de antemão, que ela não é de mais ninguém, só minha.
Mas meu saber não passa disso.
Meu prazer também está todo depositado aí.
O resto, não sei se são escolhas, ou determinações..
O resto é o resto..
Determinações, escolhas, tudo grande merda.
Nada disso existe de verdade.
De verdade mesmo só existo mesmo eu e meu cigarro no cinzeiro.
Existe também esse texto que você lê.
Mas ele não existe de verdade, é pura invenção arbitrária..
Invenção levada pelo egocentrismo, egoísmo,
todos os esses ismos idiotas
que todo mundo que se acha importante carrega no peito.
Só o que existe é o céu, o Sol e as nuvens.
Claro, também existe o calor.
E esses existem totalmente de verdade.
Não tenho por onde ir.
Já passei por mais de mil atalhos.
Já me escondi atrás da moita.
Já me encontraram lá, acanhado, me encolhendo.
Já me suicidei umas quinhentas vezes, sem resultados satisfatórios..
Macacos resumem minha idéia de sociedade evoluída.
Macacos humanos ridículos, limitados.. Macacos como eu.
Aqui de cima,
a vista não é muito melhor que aí de baixo.
Tudo depende do olho de quem vê.
Macacos, só enxergam árvores e folhas.
De galho em galho,
a incerteza do cipó..
e a certeza dura do chão lá embaixo..
Primatas primários,
Primatas precários,
Primatas patéticos.
Já acostumado,
me olho no espelho
do meu banheiro.
E vejo um macaco e sua velha face,
com seus velhos pêlos.