Eu, tú, ele, nós, vós, eles..

Minha vida é isso mesmo
é o caminho torto por natureza
é a onda que vai contra a correnteza
Dia após dia no emaranhado do tempo
Coisas fora do lugar, revoluções internas,
Mudo de cidade, mudo de nome,
mudo de cara, mudo tudo que eu posso,
mas nunca consigo mudar a mim mesmo..
E fico aqui mudo, estático, observando tudo,
ao mesmo tempo perplexo e acostumado..
Ando de um lado pro outro nesse apartamento,
bato a cabeça nas paredes e tento morder o teto,
envio mensagens telepáticas, mensagens eletrônicas,
mensagens de caos e desespero. Busco algum contato,
mas o mundo exterior me parece tão encaixado, de forma
que não consigo enxergar nenhum espaço pra mim ali..
Prossigo pelas margens, o marginal mais marginal que há..
Prefiro andar pelas margens a ficar encima do muro,
é melhor andar pelas margens do que viver na inércia.
Tá certo que as vezes dói, as vezes chegam duvidas,
muitas vezes agente não sabe se escolheu esse caminho,
se foi escolhido por ele ou então se simplesmente aconteceu.
Mas minha vida é isso mesmo, ruídos e gritos indecifráveis,
pra me ver seria preciso fechar totalmente os olhos,
pra me enxergar seria preciso apagar tudo ao meu redor,
senão eu fico sempre camuflado ali no que me circunda.
Olhando superficialmente é possível ver tudo o que existe
ao meu redor, tudo o que eu destruo e construo, tudo o que
eu insisto em fazer simplesmente por fazer, isso é visível..
Mas eu mesmo não sou isso, eu sou o que veio antes disso
e que vai continuar depois disso tudo. Eu sou algo inacreditável..
Qualquer um que me observasse pensaria: mas porque ele faz assim,
se existem tantos outros jeitos mais fáceis de fazer??? Ora, ‘porque’?!?
Simplesmente porque pra mim, esse é o jeito mais fácil,
esse é o único jeito, é o meu jeito, sei lidar com isso...
E entendo totalmente quem me pergunta ‘porque’.
Entendo pois eu vejo os outros do mesmo jeito que eles me vêem,
pra mim, o caminho deles é o mais difícil e eu não entendo porque
eles não tomam um entre tantos caminhos melhores e mais fáceis..
E agora chego a entender mesmo o motivo, é simples, o motivo deles
é idêntico, é o mesmo motivo que eu tenho. Eles seguem o caminho deles,
o caminho que para eles é o mais fácil, o caminho com o qual eles sabem lidar.
Eu, tú, ele, nós, vós, eles, no fim é tudo a mesma coisa..

O Relógio

Com prazer
deixo o caos
dominar sempre
me guiando
certo por linhas
mais do que tortas
sem auto afirmações
simplesmente porque
pra mim
são inúteis,
desnecessárias..
que tudo seja o que for
e o resto também
porque é mesmo
o único jeito
sempre foi
sempre será
ou não
como sempre
ou não
mas também como sempre,
ou sim
graças ao caos,
essa, é a principal,
a maior beleza,
entre todas..
o 'em aberto'
o 'que falta'
o 'que ainda não é...'
e também é claro
o 'que se está sendo agora..'
enfim, tudo junto, ao mesmo tempo..
celebremos o final
celebremos o começo
a vida, a morte, enfim,
tudo funcionando!!
(e acredito que tudo
sempre funciona do
jeito que deve ser...)

Planetas mil
meu relógio voltou a andar..
em ziguezague,
nunca só em frente,
porque o ensinamento é velho:
quem anda só pra frente
nunca chega a lugar nenhum...
Viva todas as explosões caóticas!!
Espirais em todo o céu, luz e paz!!
(15/01/2006)

Tiro ao Alvo

No micro-macro espaço cósmico
por entre as frestas, calafrios
vulneráveis! agora e sempre...
nunca mais até ontem
hoje já não se sabe
muito menos ontem
talvêz amanhã
tudo poesia
tudo nada
o caminho é o mesmo
sempre, mutante,
chegando sempre lá...
de um jeito ou de outro
enquanto isso e até mesmo
depois de tudo isso
sem escapatória
bem no alvo
o tiro certo
bela pontaria!
a música chega lá
na verdade, mais longe ainda
chega até onde nem existe vida
qualquer lugar caolho que fosse

Receita do Dia..

Muito frio nas bandas de cá.
E muito caos por todo lado, cá ou lá.
Ou em qualquer outro lugar.

E por dentro, uma gastrite crescente
pedindo sempre mais atenção.

A vida não é de brincadeira. Mas que parece parece.
Menos nas horas que parece séria.
Menos quando a coisa vem à tona.

Tô precisando de uma salvação urgente.
A começar pelo ar que eu respiro, passando por todas as coisas que eu ingiro.
Você é o que você come e você é o que você pensa. Tudo junto.
Você come o que você pensa, por isso você é o que você pensa.
(09/05/2007)

Noves Fora..

Percalços
Deslizes
Tropeços
As pedras do caminho
Um desvio secreto
Atalhos
Trilhas
Os mapas
As estrelas
Pontos de referência
Tentativas
Mais tentativas
noves fora,
resta a vida.

A Foice

Enquanto a lama escorre
cuspes no asfalto evaporam
tudo girando, funcionando
bem mais do que sistemas
ou qualquer coisa assim
bem mais que tudo: o caos
pedindo informação, pedindo um cigarro
e de repente (porque assim que tem que ser..)
não mais que de repente... a morte
vestida de branco, só pra disfarçar
te enganou direitinho
caiu como um pato
pato não, presunto mesmo
presunto no chão, sem mais delongas
foi dessa pra melhor
e veio bem no dia marcado
(justamente por isso, você nem esperava)
mas ela veio mesmo, no dia certo
local exato, pessoa, hora, foi.
E você tentou até dizer que não,
que devia ser com outra pessoa,
que com certeza a tua hora ainda não tinha chegado,
mas a morte é velha e surda,
rodopiou a foice no ar
e numa manobra exibicionista,
girou a lâmina tirando-lhe a vida
ela não estava pra brincadeiras,
e gostava de aparecer...

Grande Novidade

As ruas, calçadas, placas de trânsito, bueiros, grades, janelas, escadas, subindo e descendo, o concreto, cimento, tijolos, pedras, areia, a massa, tintas, cores, texturas, paredes, chão, teto, a grama, o céu, estrelas, a Lua, nuvens, viaturas policiais, caminhões de lixo, bicicletas, as crianças correndo, o catador de latinhas puxando sua carroça, os cachorros vira-latas e os gatos rasga-sacos, formigas, baratas, azulejos, a banca de revistas, os pontos-de-ônibus, o bêbado da praça e todos os taxistas, arbustos, gaiolas, os carros indo e vindo, as casas, prédios, becos-sem-saída, a praia, o mar, as ondas, antenas de celular, os aparelhos de TV, a energia elétrica, as folhas que caem no outono, a ventania, o movimento, fones de ouvido, um mergulho, um banho quente no inverno, as chaves, fechaduras, cadeados, correntes, portas, pessoas, personagens, as memórias de cada um, o tempo fugindo sempre, o jornal nacional, a copa do mundo, as favelas, a novela das oito, tramas, dramas, comédias, ilusões, frustações, um maço de cigarros, o cinzeiro entupido, as geladeiras, fogões, máquinas de lavar, o ronaldinho, a Hebe Camargo, Jimmy Hendrix, Elis Regina, meu pai, seu tataravô que você nem sabe quem é, os poços de petróleo, vulcões adormecidos, o movimento tectônico, o cometa Harley, enfim, é tudo a mesma merda.
(02/03/2006)

Psicodelismo

A viagem psicodélica não tem limites. Nenhum tipo de limite. As repetições, os padrões, as variações, a unicidade, as relações e inter-relações, as redes de idéias e pensamentos, slideshows infinitos de imagens quase aleatórias, a imaginação, o sonho, a viagem, as conclusões, complicações, simplificações, resumos, intuições, a natureza, a energia, a loucura, a inutilidade, o vazio, as cores o tempo, tons, sons, melodias e ritmos, loopings, o acaso, texturas, formas, os cheiros, sabores. As luzes, sombras, profundidades, perspectivas, os pontos de vista, a vista limpa e clara, a realidade, o espaço, o agora, os símbolos, as compreensões, interpretações, a falta de qualquer sentido, o nada, tudo isso ao mesmo tempo, enquanto dure, infinito, os brilhos, reflexos, misturas, as velocidades, as cidades, os mundos, os séculos, os segundos, o raso e o profundo, o universo, os versos, as estrelas, tudo está envolvido no psicodélico, qualquer caleidoscópio ou trance pode provar isso. Psicodelismo é um modo de interagir e entender, consigo mesmo e com o mundo ao seu redor, muito mais que drogas, som, filosofia, religião, teorias, psicodelismo é vida. E também é morte. É uma bússola perdida que nunca aponta para o norte. É a fraqueza do fraco e a força do forte.
(2004)

Publicidade

Sentado numa mesa
da Antarctica.
Azul. Com pingüins.
A tatuagem nas costas da menina.
Conversa comigo. E me diz.
A vida continua. É grave.
É grávida. E de barriga de fora.
A gravidez oculta da menina-motorista.
Que se revela quando desce do carro.
Comentários dos mais vários. Esquisitos.
A coca-cola em seu último copo.
Garrafa vazia. Sem alma. Transparente.
Porque a alma da coca-cola é negra. E borbulhante.
A coca-cola é onipresente, como Deus.
Mas não é Deus, é só coca-cola.
E eu sei que ela se sente mal ao notar-se
em cima de uma mesa da antarctica.
Enquanto isso, lá de um canto quase escondido do trailer,
uma caixa de papelão me grita: ‘-Beba guaraná!’
Me sinto perdido e não sei mais o que beber.
O que eu faço se agora já é tarde demais
e eu já estou cheio de coca-cola???
Tudo bem, espero descer e tomo uns copos d’água...
Porque a sede sempre volta.

Retornável

Nada disso
ou daquilo
apenas um
ou algum outro
ainda perto
enquanto é tempo
lado a lado
certezas fora
agasalhado e suando
no sinal vermelho
atrazado e com pressa
dia após noite
noite após dia
tardes e manhãs
meio-dia, madrugada
um ônibus lotado
parando de ponto em ponto
pedestres e postes
e o eterno retorno...

Sobremesa

O laboratório continua
experimentos mil
e faíscas por todo lado
reflexos do invisível
descendo a escada
lado a lado, a conspiração
a ação, reação, interrogação
fumaça subindo, desenhando o ar
ruídos da cidade, toda uma vida
o espectograma verídico disso tudo
enquanto ainda tem alguém aqui
depois, só o que restar
nada mais: sobremesa
vozes e latidos, uma moto gritando
mais latidos, mais motos
aviões, bombardeio
um tanque de guerra
(tem coisa mais ridícula??)
lutando pela paz
tudo isso e muito mais
tudo o que estiver além da margem
tudo o que for fragmento ou espiral
talvez algum tipo novo de infinito
fractais no meu lençol, rodam
rodam, funcionam, derretem
sou engolido pelo pano
mastigado, cuspido e escarrado
e quando eu era só um cuspe no chão
me lembrei de tudo o que já tinha esquecido
(02/11/2005)

Trilha

Na busca de me encontrar,
mais uma vez, procurando..
Tentando decifrar
as pegadas
enquanto ando..
(06/10/2005)

Prece

É isso ae,
apesar opinião contrária de terceiros, quartos,
quintos e sextos, quem sabe até sétimos,
creio ainda na minha total sanidade mental, espiritual,
`seja-lá-o-que-for-al`, inclusive...

O caos me entrega o caderno
traço planos de acordo com
um dia de cada vez, com calma
paciência, que nunca matou ninguém
paciência, que acalma os justos
prefiro me retirar a uns 300 metros
ficar ali por cima só observando
o teatro cômico que se apresenta
mas meus olhos abertos pra tudo isso,
acarreta que estejam abertos também pra outro fato,
o fato de que (in)felizmente (?!?) não posso fugir,
também sou ator hilário, nessa comédia bizarra,
e represento meu papel querendo ou não,
mesmo que fosse o papel desse louco que
sabe sim da sua loucura, mas sabe também
que é (in)felizmente (?!?) tão são quanto
qualquer infeliz debaixo desse céuzaum!!!
do jeito que for
vamo nessa
se melhorar estraga..

Nada

Mesmo que você
tome cuidado
mesmo que você
tome juizo
mesmo que você
tome antidepressivos
mesmo que você
tome o caminho errado
o mundo será o mesmo,
nada de novo no front..

Irene

A vida é isso: dor e ilusão
o resto é brincadeira,
é vida também, mas se perde por entre os dedos..
a única vida que fica mesmo, é dor e ilusão
é o que sobra no final
lágrimas e vento
solidão
paredes desenhadas e mais nada
..
sempre um disco na vitrola
fotos nas gavetas
cadernos velhos e carregados
carregados de passado e teias de aranha
e o extrato final dessa transação nosense é um só:
delírio e satisfação
vida e dúvida
desfalques no espelho, mesmo assim: o reflexo é vivo
e talvez, até seja eu mesmo aquele ali.
Escavando trincheiras entre almas,
é assim que agente aprende a viver.
Temendo tudo que for temível.
Mas eu prefiro do meu jeito:
eu só temo o intemível.
nada tenho,
a desconexão me completa.
E agora que só estamos eu, eu mesmo e Irene aqui na sala,
vou me retirando porque nada mais tenho a fazer..
(25/05/2007)

A Montanha

A montanha é a majestade muda.
Lá de longe, ela domina
pela imagem grandiosa.
Grande, verde e viva.
A montanha respira,
inspira, transpira.
A montanha me pira.
A montanha se agita
e de longe me grita!
A montanha é paradona,
não se move há séculos.
Pode até parecer que não,
mas a montanha sabe muito.
A montanha sabe das coisas
e tem a cabeça nas nuvens...
(23/5/4)

Daqui pra frente

O caos foi aprontando coisas, pessoas, idéias, conhecimentos, possibilidades, ferramentas, o caos foi preparando tudo, cada coisa no seu lugar. Ninguem sabia aonde as coisas iriam chegar, mesmo assim todo mundo estava muito afim de ir lá, onde quer que fosse. A vontade de tudo era maior do que a necessidade de ter um direcionamento claro da vontade. O caos armou todo o esquema e foi revelando aos poucos o roteiro do filme. Cada um dentro de seu personagem tinha um ponto de vista do esquema, mas todos enxergavam as mesmas coisas, em essencia. E quando chegou o momento, pareceu que seilá, o tempo é muito doido mesmo. Ao mesmo tempo pareceu que era o final de uma grande jornada até ali... e por outro lado parecia que tudo estava apenas começando; E tudo era verdade e simultaneo, ao vivo, em carne e osso, daqui pra frente e sempre...

A vida de novo..

Acelerações bruscas,
não ajudam em nada..

A vida toda pela frente
Todo dia é assim
De um jeito diferente,
Mas sempre igual.
Palavras pulam
De nada adiantam
Se não forem fluídicas
Fluentes, naturais, espontâneas.
Assim como a respiração
Tem que ser o ato de escrever
Uma busca que se encontra em si mesma
Um eterno retorno satisfatório exponencialmente
Inversamente proporcional ao resto das coisas
Porque no fim de tudo é isso mesmo
Ou nada, enfim, pouco importa qualquer coisa.
Essa é minha justificativa. É por isso que caminho pelo niilismo.
Construções inúteis, a não ser pela beleza, ou estranheza que seja.
Deformações múltiplas, composições abstratas demais.
Prefiro caminhar pelo prazer a que chegar em algum lugar.
Na verdade acredito que o único jeito é esse. Infelizmente.
Esse é o único jeito porque não tenho como acreditar em outro.
Essa história de se chegar em algum lugar é sempre ilusão.
Não passa de uma rica fonte de alimentos pra frustrações mil.
A cada dia, a cada minuto, momento a momento.
Na velocidade que minha cabeça conseguir andar eu vou.
Meu tempo é esse, meu ritmo, é esse o meu limite.

Acelerações bruscas não ajudam em nada..

Não posso fazer tudo o que imagino, mas acredito que isso seja um mal comum a todas as pessoas que imaginam fazer muitas coisas.

Eu poderia tentar imaginar menos coisas a fazer, assim proporcionalmente faria mais coisas das quais eu imagino fazer, mas isso seria deliberadamente uma tentativa de me limitar.

Prefiro imaginar fazer muitas coisas e fazer de fato o máximo delas que eu conseguir, mas sem pressa, sem agonia, porque é importante lembrar que ninguém nunca vai conseguir fazer tudo o que quer. Então o lance é curtir momento a momento, segundo a segundo, na velocidade tranqüila que sua mente puder te levar.

Acelerações bruscas não ajudam em nada..
(2006)

Descalabro n.85

Nas horas mais imprevistas
Sob tanta chuva seca
Rastejando entre as núvens
A areia é sempre areia

Tudo é o que está
enquanto se está sendo
O que nunca foi, não será
Perto-Longe do veneno

Mergulhado em pelos curtos
assepticamente hipócrita
(ou hipócritamente asséptico)
Mastigo esse banquete defunto

Enquanto finjo que acredito
poeira, rocha, areia.. partícula..
A mesa da sala me adimensiona
entre o leve e o rápido: Macaco
perplexo, estático, esculpido (eu..)

Ser Deus..

No som, tudo resulta do movimento. Cada barulho, cada ruído é um movimento. É também luz, cor, intensidade, textura, volume, contorno, ângulo. O som, pra quem o ouve e sente, pode ser visto, tocado, cheirado, engolido, cuspido, modificado. A música é a junção, a construção, a montagem engenhosa de seqüências de sons. Fazer música é arquitetura. Fazer música é criação. Fazer música é, quase, ser Deus.
(27/5/3)

Sem Atalhos

A acusação é inerte
azulejos bizantinos
grande merda
parafusos nas esquinas
e de que adiantaria
uma vassoura agora?
Jogando dados sem sentido
descendo rios, descabido
nada daquilo (que você esperava..)
mas ainda dentro do script
até a pilha acabar..
mais do que alcalina: recarregável
subindo a ladeira
contra a correnteza,
sempre
que for possível..

Pressa

a pressa tem astigmatismo
entre os concretos armados
películas de insufilm
tudo descartável,
mil copos plásticos,
cheios de guaraná borbulhante..
a cidade continua borbulhante...
a pressa cerra os olhos
e tenta enxergar,
mas não vê nada!

(..e continua ali, parada..)

Sonhos e Pesadelos

Espelhos espasmódicos
Espinhos espiralados
No tocante que for
Qualquer ou nenhum

Ávida, uma cobra
Favores aos felinos
Dados num cassino
Uma puta na esquina

(e o velho intercambio: dia x noite)

Sinto coceira nas
dobras das paredes
desse quarto desafinado..

Trance

Aparar as arestas, deslizar pelo canto, preparar as texturas, caminhos, atalhos, truques de ilusionismo, explosões, a última tecnologia e o mais ancestral instinto primata, fórmulas prontas, inovações, percepções, um ritmo quadrado, que ficou redondo de tanto girar, intuições, estudos autodidatas, faculdades mentais, experimentos, composições, complexidade, a matemática simples dos fractais, visões, túneis musicais, o entrelaçamento lisérgico, todas as pessoas em uma só, deus, macacos, o diabo, o bem, anjos, o mal, o tudo e o nada.

Prece n.27

Ó grande caos,
imprevisível,
fatal,
inevitável..

E algumas coisas,
parecem demorar demais..

E já não sei mais,
se foi, é ou será..

Se não fosse o caos,
até que me surpreenderia
essa tamanha piração,
mas tratando-se do caos,
nada mais previsível..

Ó grande caos,
imparcial,
equilibrando-se sempre
na corda-bamba..

E nossa novela,
que antes tinha aquela
cara de sessão-da-tarde açucarada,
agora mais parece algum tipo
de drama-comédia-romântico-clichê,
bem pior que novela mexicana...

E nessas horas,
pergunto pro caos:
Qual seria o sentido
dessa palhaçada toda?
(5/3/6)

Esboço

Eu quero é consumir logo tudo
pra ver se acaba o meu sofrimento...

O jogo das energias
se mostra realmente eficaz...

Bicicletas enferrujadas e com
todos os pneus vazios e furados

(ao longe escuta-se a melodia
do velho caminhão-de-gás...)


Parece um dia como outro qualquer,
enfim,
porque seria diferente?

As variantes (poucas) não me
cegam para as constantes (muitas..)

Aos poucos, me surge um esboço
de algo que pode vir a ser, quem sabe..
(carnaval 2006)

Se oriente rapaz..

Quem paga pra ver,
acaba vendo...

O caos é realmente maravilhoso
As portas se abrindo, enfim,
as portas se abrindo...

Como já me perdi muito,
resolvi ficar aqui agora,
ficar em mim mesmo.

Viajar agora no maior
universo possível: eu mesmo
Descobrir quais são as coisas
que realmente me interessam.

Paranormal

Surdas begonias ao lado do lixo
e o entardecer das belas cinzas
ao que restava de toda a sobra
mais faminta a vida vinha
E aromáticos tambores
batucavam sinfonias,
em estrondos e vapores,
catalépticos, suicídas,
urgem ao caos em seus labores
que não tem ida nem vinda,
sobram dores, sobram dores,
sobra tudo que agoniza
planeta terra casa azul
que cintila inerte e oscila
gráficos e tabelas de valores
resurgindo das pesquizas
sofre o ódio e os amores,
sofrem pessoas na surdina
gargalhadas gargalhantes
sorridentes na latrina
enquanto todos os leitores
sofrem a pobresa..
a pobresa de qualquer rima..
(07/06/2007)

Escorrendo

A vida escorre.
Como um catarro denso..
Não como água, mas como barro..
A vida escorre assim entre os dedos,
Argila em mãos de criança pequena..
Que fecha a mão e a vida é aquilo que escorre,
Aquilo que foge por entre os dedos da criança..

E tudo pode ser, ou não, vida!
Tudo sempre dependeu e continua a depender do ponto de vista..
A vida escorre..
E o que sobra, tempo passado e tempo porvir..
Mesmo que digam que está em falta,
O que mais sobra, sempre, é o tempo..
E o que mais falta então?

Todo o resto..
Falta a construção,
Falta a reforma,
Faltam montanhas,
Rios, árvores, falta espaço,
Falta vergonha na cara,
Falta vergonha, falta espelho,
Falta tudo, falta muito..

Sendo assim o que importa!?
Importa sempre tentar o melhor!
O nunca antes tentado, mesmo que sempre tentador..
Tentar o perfeito,
Tentar descobrir qual é de fato o único jeito possível para tudo!
Tentar achar a fórmula total, completa e definitiva.
O ponto final dos pontos finais.
Aquilo que faria tudo perder a graça pra sempre..
A vida é o grande perigo contraditório,
A vida é tentar o que nunca devemos conseguir..
A vida é tentar tirar o sentido da vida..

A vida é boa..
A vida escorre..

A vida escorre,
mas é boa..
(Fev/2010)

Ideologia

Minha ideologia é a dos cachorros, dos gatos, dos mosquitos. Minha ideologia é a das folhas, flores, dos grilos. Minha ideologia balança com o vento. Minha ideologia é a dos vulcões, das tempestades, dos trovões e do Sol que seca tudo depois. Minha ideologia é a pura natureza, gritando, mugindo, fazendo como quizer...

Agora sim..

Agora sim
A máquina pronta pra tudo
Esperando suor e trabalho
Esperando miragens
Enfim, voando
Dentro da cabeça mutante
Esquizofrenias mil
Vai saber o que mais...
Mas o que interessa é isso
Essa transmutação
Essa mágica
Que por algum motivo (por mim inexplicável..)
Transforma loucura em alguma coisa
Qualquer coisa que seja
Mesmo um texto auto-explicativo
Auto-interrogativo
Auto-didático??
Porque não...
Alias.. Não existem mais ‘porque nões’
Nenhum que eu possa nem ao menos vislumbrar
Em compensação, os ‘porque sins’ abundam.
Como deveria ser mesmo
Nada fora do esperado
O que mais esperar afinal?
Alguma luz no fim do túnel ou algo assim?
Prefiro cair na realidade e me tocar, me ligar.
(Março/2006)

Sempre é Tempo

Sempre é tempo
De retomar o rumo
O fio da meada
Enfim, não é tarde demais
Embora tudo leve a crer isso
Mas sempre é tempo
Tudo tem conserto
É só ter paciência
E fazer aos poucos
Tudo o que tem que ser feito
Sem pressa, mas sem marasmo
É preciso agir o quanto antes
A luta nos empurra para o sofá
Frente a frente a uma tela de ilusões
E diz no nossos ouvidos: ‘Relaxa’
‘Tudo está certo não se preocupe’
É nessa hora que dá pra perceber
Percebe-se aí claramente quem é quem
Ou melhor, percebe-se quem é e quem não é
A maioria prefere submergir em mentiras
Mentiras confortáveis, tranqüilas, quase boas.
Se não fossem mentiras, tinham tudo pra ser boas.
Mas não passa de um jogo armado, com cartas marcadas
Eu particularmente não vejo graça em jogar assim
Cartas marcadas não são ingênuas, elas tem sua maldade
Mas quem está sendo iludido nem percebe as marcas nas cartas
E vai jogando dia a dia, achando sua derrota é justa ou normal.
Mas é tudo mentira. Nenhuma derrota é normal
Ninguém pediu pra nascer em campo de batalha,
Mas se foi aqui que nascemos, que venha a guerra então
Ninguém nasceu pra perder, pra se entregar
Mesmo assim, de alguma forma, não sei como,
esse nosso sistema dominante está derrotando a maioria
O pior é que trata-se de um sistema imbecil e muito falho
Não consigo compreender tanta gente se entregando desse jeito
É preciso um despertador gigante pra acordar todo mundo.
(01/04/2006)

Trapaça

E na hora que todos desciam a escada,
pulei fora enquanto ainda era tempo!!
De que me adianta ser uma pessoa??
Plástica, reciclável, de coca-cola e vazia...
E se eu quizesse ser uma garrafa!?
A pulsação segue o ritmo do metrô,
(o olhem que nessa cidade nem tem metrô!!)
ritmo de acasalamento via embratel,
vou bater uma punheta binária pra você!!
E depois, fumaria um cigarro,
isso se eu fosse fumante...
Mas por enquanto, prefiro ficar aqui,
com o ouvido grudado na lata de lixo,
tentando enxergar algum túnel
no meio de tanta luz!!!

(Já passei séculos
grudado no teto,
pra mim chega...)


Chege perto, seja você!
Haja como se nem você estivesse vendo,
pouco importando-se com opiniões alheias,
nem com sua própria opinião mesquinha..
O jogo de damas é bem melhor que o xadrez,
o jogo da velha é bem melhor que o de damas,
ficar sentado sem fazer nada
é melhor que todos os jogos juntos...
Inclusive esse jogo imbecil que não sai do empate,
nossa vida, nossos sonhos..
Me parece que o primeiro tempo já se foi...
Estamos em pleno intervalo!!
Claro que no segundo tempo vou fazer mais gols
E prefiro dispensar as prorrogações
Sou contra prorrogações de qualquer tipo..
Na verdade estou sempre prorrogando algo..
Acho que vem daí meu trauma prorrogativo
Estupidamente sentado sobre minhas nádegas,
Só sei caminhar sobre meus pés,
por mais que eu tente usar a cabeça.
(nunca consegui enxergar nada com a orelha.)
Avacalhando tudo ao meu alcance
sendo, na oposição, a concórdia!
Enquanto faço as coisas cotidianas,
estou na verdade fazendo algo bem maior,
estou sempre, a cada momento que se passa,
esperando meu cabelo crescer mais...
(2005)

Incolor

Tanta coisa a fazer
Hoje agora
Na cabeça azul
Aqui, lá fora
De doido de cola
Pra pirar nun
Som viajandão a mil
Crunzand’o Brasil
Como eu queria aconteceu
Eu e vocês, vocês duas
Sua companhia agora
E também a sua
Aquele cantor imbecil
Mesmo quando não desafina
De sempre certo
Não chega nem perto
Rimando amor com dor
Criatividade com incolor
Indo longe mesmo
O cigarro aceso
No cinzeiro apagado
Já era, ta falado.
(2004)

Reflexão

No forno a comida
esquentando
na cabeça o ontem
o amanhã
cabelos
ao meu redor o hoje
o agora
ao meu redor
possibilidades mil
no bolso, lenços
documentos
no peito, amores
lamentos
nas costas meu violão
dependurado
nas lembraças, lacunas
flashbacks
a vida
e nas fotografias
pessoas estranhas
muitos eus passados
e quando eu me olho nessas fotos
sei que não estou me vendo ali,
estou vendo uma pessoa que não existe mais.
Porque eu estou aqui vendo a foto, estou fora da foto
A foto não passa de um fake, talvez uma denúncia
querendo provar que eu não sou mais eu.
(04/04/2006 - 21h11)

Não Duvido..

Não duvido de nada
que me pareça vivo.
E é lógico que de algumas
coisas eu me esquivo
Mas outras coisas me atingem em cheio
ladeira abaixo, na banguela e sem freio
Roupa suja se lava em casa
copo muito cheio quase sempre vaza
Eu aprendi a flutuar bem mais alto
e bem melhor do que os da Nasa
Pra mim a sua piscina
sempre vai ser muito rasa.
Bota no microondas
a lasanha congelada.
Ajusta o tempo e
espera a parada.
Quando toca o bip
Vai lá se serve e come
Depois TV e cigarrinho
enquanto você não dorme.

Antes que Seja Tarde

Antes que seja tarde,
tenho que me conhecer...
pelo menos o suficiente
pra não me perder
em mim mesmo
nesse monte de fios
confusos e emendados
estouros, faíscas e estalos
Curto-circuito geral...
Aí eu paro e percebo
o truque que eu mesmo me aplico.
Invento coisas pra mim mesmo e
me faço acreditar que é tudo real.
Aí entro em um monte de viagens..
Viagens quase autistas, de tão minhas..
Ainda bem que pelo menos eu sei disso.
Sei como funciona e assim fica mais fácil.
Assim consigo me infiltrar nas engrenagens
e tirar minha parte sofrendo o mínimo possível.
A atmosfera é mudada por vários fatores diversos,
Som, clima, energia, cores, pessoas, lugares, temperaturas...
Tudo mexe na atmosfera e a atmosfera é onde tudo acontece.
É preciso cuidar da atmosfera, cuidar bem dela pra ela ser habitável..
Em relação a tudo... não sei como vim chegar nesse assunto, já me perdí
todo em relação ao início do texto, mas é até bom isso, pra lembrar que a vida
também é assim, vivemos perdendo o fio da meada, mas é assim mesmo que deve ser.
A vida é feita mesmo pra isso, pra agente viver perdendo e buscando fio da meada, além da descoberta, do conhecimento adquirido durante essa busca..
do que que eu tava falando mesmo???

Piedade

Piedade. No mínimo.
É o que merece...
Quem não consegue ver,
quem não sabe como é fácil.
É o tipo de coisa que tá na cara,
mas tem sempre aqueles chatos,
que insistem em não ver os fatos.
Me perguntam: Cadê o bom da vida?
E se acham sempre num beco sem saída.
Que pena. Que pena mesmo...
Porque o espetáculo é triste de se ver...
Porque eu vejo o bom. Vejo o ruim também,
mas eu consigo ver muito mais coisas boas.
É mais ou menos aquela coisa:
A visão está no olho de quem vê,
quer dizer, cada um vê com seu próprio olho,
e enxerga do seu jeito. É isso o que nos difere.
De resto somos todos iguais. A única coisa que
faz cada um ser o que é, é o jeito que ele vê as coisas.

Fingimento

Falo, falo e falo
e me finjo de vagabundo,
mas sei que no fundo no fundo
sou o maior workaholic do mundo

Os Dados

Podem roubar tudo de mim
Nunca roubarão meu sonho
Podem me desacreditar
Duvidar de cada palavra minha
Eu continuo acreditando
Em mim, no mundo, nas coisas
No meu niilismo, creio em tudo
Porque não sou ninguém pra duvidar de algo ou alguém
Só sou o alguém que acredita
E que põe a mão no fogo
Mesmo que eu me queime
Eu nasci pra isso, fazer o que?
Poucas coisas realmente importam
E essa é a principal delas, a base
Tudo o mais são ramificações
Desdobramentos, setores, subdivisões
Sub-tipos de problemas, provindos do problema base
Vai saber...
Minha arte é essa
A arte do nada
A arte da embromação
Das palavras bonitas (mas vazias)
Ou talvez nem tão vazias assim..
Vai saber...
Tudo é uma questão de tudo
Enfim, nada mais me resta
Além do que sobrou pra mim
E vou dizer
Sobrou pra mim tudo o que preciso..
A dor, a saudade, a poesia,
Vida, morte, o tempo, música..
Inspirando, expirando e sempre pirando
Vou seguindo os passos que mais me chamam
Vou pelo caminho da gravidade
Como uma balança,
Pra onde mais pesar eu caio
E vou por lá
até que o ponto de equilíbrio mude novamente
A vida é isso, o desequilíbrio em busca do equilíbrio
A eterna balança que nunca para
Pra lá
E pra cá
E pra onde mais o peso pesar
Infinitas possibilidades
Traçadas a cada segundo
E “quem é que joga os dados”,
isso não é pergunta que se faça..
Ação e reação é bem mais simples do que parece
E acho ridículo querer complicar..
Cada um joga os dados, todos juntos, lógico.
(27/03/2006)

Palavras

Sempre
Tudo
Nunca
Nada
(2005)

Jungle City

Quanto lugar inóspito
(nem me sinto daqui)
em meio a teias de aranhas,
só mais uma vespa, talvez..
Zumbindo chato, insistente.
Zumbindo quase maliciosamente,
lambendo meu céu da boca e
me perdendo em mim mesmo,
como um cão atrás do rabo,
burramente, naturalmente, enfim,
nada surpreendente...
(carnaval 2006)

Brainoil

(pra lubrificar seus neurônios!)
Buja da lambuja
e aí já começou
o fim
da linha

cego
pra sempre
já era
já foi
jacarandá
ou não dá
estrada solar
ou na estrada
ou no lar
notando ou
até sem notar
o caminho é meu
o caminho é nosso
é de quem caminhar
por cima dele,
trilhando-o,
criando-se-o.
(15/1/3)

Auto-Retrato

Somos a juventude perdida,
A velha juventude perdida.
Cantando:
“-La cucaracha, la cucaracha
Já no puedes caminhar,
Porque no tienes, porque no tienes,
Mariajuana pra fumar..”


Mil anos a fio..
Nesse portunhol que quase engana..
Botando a culpa nos outros..
Queimando nossa memória,
Sentados em vinte sofás,
Queimando os dedos..
E soprando na velha gaita desafinada
Velhas canções de amor..
(Fev/2006)

Girador

Enquanto o mundo girar,
mesmo que eu nunca veja o giro,
eu vou estar aqui, girando..
Girando e pensando se
realmente o mundo gira..

Enquanto eu penso se o mundo gira,
o mundo na pensa sobre mim,
e gira, gira gira sem parar..

Gira tanto que me deixa tonto,
tonto só de pensar no tanto
que é loucura saber que o mundo gira

Mas a loucura mesmo é que,
mesmo estando sempre a girar,
ninguém cai por causa disso!
Quando caímos, sempre é por
causa dos nossos próprios tropeços..
(19/1/3)

No Espelho

Ar condicionado
condicionador
shampoo
champagne
chipanzé
microchips
microfibras
brasileiro
maconheiro
janeiro
agosto
encosto
mal gosto
seu rosto
sua cara
ou barata
cuspida
e escarrada

Flashbacks

Flashbacks, retorcendo as paredes.
Novidades, só mais pó sob os tapetes.
A intensidade indescente dessa sede..
Vou murmurando e dissolvendo pelas ruas,
olho pro céu e já são mais de três luas.
Me balanço, trapezista do vazio.
Não me canso e vai queimando o pavio,
lento a voar como a fumaça do cigarro,
mas se desejar, piso no freio e logo paro..
Enquanto a vida for a vida eu vou
partindo deste ponto onde estou
e meu lugar é sempre um pouco mais
na frente d’onde eu estava um segundo atrás..
Parece fácil, mas nada é tão fácil assim,
nem tão difícil, que não se resolva no fim..
Mas vivo o hoje e duvido de um final,
a história segue, só que nem tudo fica igual
ao que era antes, o que era no começo,
seres errantes, aprendendo co’s tropeços..

Pessoas

Algumas pessoas sabem que
algumas pessoas querem que
algumas pessoas esqueçam que
algumas pessoas viram que
algumas pessoas mostraram que
algumas pessoas escondiam que
algumas pessoas proíbem que
algumas pessoas permitam que
algumas pessoas sonhem que
algumas pessoas vivam..

Forte

A luz do Sol me ofusca os olhos.
Não sei se eu que sou fraco ou se o Sol que é forte.
Mas na verdade tanto faz. Pra mim o Sol e forte.
E para o Sol eu sou um fraco.
Por isso, quando o Sol está com raiva de mim e tenta me cegar,
Eu coloco rápido meus óculos escuros.
Pra mostrar quem é que manda,
E pra poder enxergar.
(01/03/2001)

Científico n.326

Enquanto espero
sentado fumando
o tempo reto
vai circulando

Caóticos espirais,
espirros de vida.
Caóticos espirais,
esporros de vida!

A invenção da roda,
a química borbulhante,
faíscas..

As ondas batem e voltam.
Mas as ondas que voltam,
não são as mesmas
ondas que bateram..

Destino

Eu acredito em destino.
É mais ou menos como: Eu me destino a isso.
Cada um se destina a alguma coisa.

Você se destina a que? Eu me destino a isso.
Porque? Porque eu quero isso.

Ou seja: Eu me destino ao que eu quiser.
Simples? Talvez..

O complicado pra muita gente é outra coisa.
O complicado é justamente saber o que se quer.
Ninguém sabe ao certo o que quer.
Então ninguém sabe a que se destinar.

Ai muita gente se perde no caminho.
Que caminho? Vários..
Porque cada um se ilude de um jeito.
Cada um se perde por um caminho diferente,
é incrível a variedade de caminhos perdidos..

Seguem então um bando de idiotas infelizes.
Burros mesmo. Por não tentarem do jeito mais fácil.
É simples sim: A vida foi feita pra viver.

Todos os que estão vivos são obrigados a viver,
se quiserem continuar vivos.

Então é fácil deduzir que viver é o destino.
Quem se destina a viver, sempre está cumprindo seu destino.
Não se frustra em ondas erradas de expectativas e ilusões
e aprende como é muito simples e fácil ser feliz de verdade.

Isso ta parecendo zenbudismo,
mas é bem mais simples ainda..
(9/1/4)

Burro de Carga

As vezes, não sai nada..
..ficam só flashbackando
cenas e pensamentos..
de ontem,
de um ano atrás,
do presente, passado e futuro..
Como se tudo fosse agora..
E tentar conter, além de impossível,
seria inútil..
Agente acaba carregando
o mundo todo nas costas.

Hora Certa

Porque tudo tem um começo
e acabo terminando pelo final
que acabou de começar

Detalhes, minúcias, nuances, sutilezas
o acabamento fino, a escultura milimétrica
tudo o que for sem sentido
e a mensagem oculta
com seus múltiplos significados

Enquanto tento decifrar o meu significado,
observo meu gato hipnotizado com a mosca que caça.
E me sinto perdido.. Sou insano, sou louco..(dizem as vozes perdidas..)
Sou feliz, sou eu..(diz a voz encontrada..)
e quando parece que estou estático, na verdade estou mesmo
é aguardando o momento propício, a condição favorável,
enfim, a hora certa

Farol

Cada dia, outro dia.
Outras pessoas, outro mundo,
Ou será que você não sabe
Que a vida só dura um segundo?
Tudo gira, tudo muda.
Tudo volta a ser a mesma luta.
E os mesmos medos, com caras novas.
O gato mia ainda filhote. E na escuridão da noite,
Fica perplexo com o farol do carro.
Que chega cada vez mais perto.
E o gato corre até o farol,
E o farol corre até o gato,
E faz seus olhos amarelos brilharem.
O último brilho, antes do aprendizado.
O aprendizado da vida, que se dá com a morte.
E depois disso tudo, nasce um novo dia,
E nascem muitos outros novos gatos,
Prontos pra aprender.
(2001)

Conclusões

Esse ciclo se repete a tempo demais.

A melhor metáfora que me surge agora sobre esse processo todo é a seguinte: Imagine um elástico que é sucessivamente esticado e relaxado, sem parar, vai chegar um momento que o tal elástico vai perder a sua principal propriedade: a elasticidade.

É bem isso que aconteceu comigo. Tanto fui e voltei que agora meu maior desejo é ficar parado. Eu em meu lugar. Simples.a

O problema é que muitas vezes eu acho que meu lugar, minha natureza, é exatamente a natureza da elasticidade, do ciclo eterno, da repetição vulgar e burra.

O que é essa tal de 'minha natureza' ???

Existe isso mesmo ou será apenas uma criação minha pra me esquivar das mudanças? Às vezes eu acho que não existe nada detertminado, assim como isso de 'minha natureza'. Acho que é tudo questão de escolha. Sendo escolha, pode ser tudo mudado, basta escolher uma outra coisa, um outro jeito.

E o que isso importa?
Importa que, sabendo disso, ninguém é obrigado a aceitar as coisas como elas estão. Nem mesmo as coisas internas, nem mesmo as escolhas que agente mesmo faz. Porque muitas vezes agente se proíbe de mudar nossa própria escolha, pela falsa imagem de que quem muda de escolha não sabe o que faz. Pura besteira. Não sabe o que faz é quem não muda nunca. Quem segue os passos em prol de uma falsa imagem de 'pessoa decidida que não volta atraz'. Esses tem tudo pra serem infelizes.

Porque?
Simplesmente porque as primeiras escolhas que fazemos, geralmente são imaturas. Se você insistir em levar em frente suas primeiras escolhas, vai consequentemente escolher coisas ainda num período onde você ainda não sabe direito das coisas. Tudo bem, agente nunca sabe direito das coisas, concordo. Mas temos que admitir que o tempo é um grande professor e que, com 30 anos, você tem mais bagagem pra escolher as coisas certas, do que com 15 anos. É uma questão lógica.

E daí?
E daí que é isso mesmo, ninguem sabe de nada, tamos ai pra aprender alguma coisa, se possível..
Não existem conclusões, nem aqui nem em lugar nenhum. Se alguem surgir com alguma conclusão: desconfie. Concluindo: Não existem conclusões.

Moto-Contínuo

A vida continua
continua uma loucura
uma loucura sem fim
sem que nem porquê
porque assim é a vida
e a vida continua
continua uma loucura
uma loucura sem fim
sem que nem porquê
porque assim é a vida
e a vida continua..

Globalização

Golden Tamarin,
Não sei porque
Te chamam assim.
Golden Tamarin,
Tu és apenas
Um mico pra mim.
Golden Tamarin,
Só não vou pra amazônia,
Porque meu celular é da Tim.
Golden Tamarin,
Tu és um prenúncio
Da chegada do Fim.
(20/05/03 - 18h20)

É o jeito

Várias intervenções
(e eu permaneço na espreita..)
Um avião estronda pelo céu
As paredes vibram grave
Me encolho, esticando’s ouvidos
(percebo agora que a ‘espreita’
permanece em mim..)
e eu.. Continuo na espreita
Lendo e remoendo cadernos velhos
Folhando fotos, revirando memórias,
Ouvindo gravações em fitas k7
Aquele som cheio de chiados
Cheio de chiados e de verdade, emoção..
Tentativas.. Descobertas, enfim,
o brilho sempre novo do amanhã
(fev/2006)

Tarde Demais

Tou precisando muito de uma dentista,
uma dermatologista, uma analista, uma conquista..
Tou precisando de alguma pista.. Meu nome tem que estar na lista!
Quero a capa da revista!! Antes que seja tarde demais...

Brasília

Eita nostalgia,
quanta saudade daquele tempo,
aqueles bares, amigos, mulheres,
aqueles tempos, aquelas viagens.

Saudades da velha cidade,
saudade dos velhos tempos,
caminhadas pelas madrugadas,
o sonho vivo, leve e volátil da juventude.

Conversas, amizades, sonhos, esperança
o espírito de simplista do ‘foda-se’
e a falta total da noção do valor do presente..
(infelizmente essa noção só vem com o tempo)

Saudades daquela inocência que não volta
e que pintava tudo daquela cor sem nome,
aquele aspecto cinza e eterno do concreto.
(e segue em paz o aprendizado lento e gradual)
(8/5/6)

Do que se trata?

Eu queria saber do que se trata. Queria saber qual o assunto realmente em pauta, qual o problema. Mas tudo continua inerte como sempre. Coisas paradas. Falta de energia. Sabe-se lá falta do que mais. Falta muito. Falta saber olhar a vida de frente. Falta saber engolir. Falta coragem. Eu queria saber porque falta tanto e agente se contenta com esse nosso quase-nada rotineiro. Eu queria entender a mesmice. O tédio. Queria burlar suar regras. Quebrar pára-lamas e paradigmas. Queria quebrar logo tudo de uma vez. Mas falta tanto, que nem essa força eu encontrei. A força do destruir. A força do anárquico. Força da raiva e do ódio. Forças vitais. Eu queria saber do que se trata esse negocio de amor que acaba assim de repente. Queria saber se quem veio primeiro foi o ovo ou a galinha. Eu queria saber mais, muito mais... Mas eu não sei.
(02/12/09)

Louconsumo..

Minha máquina corpo que nunca para, roda e consome. Sempre um pouco mais. Mais uma cartela de chicletes, mais tickets de estacionamento, mais gasolina, mais um isqueiro, um cigarrinho, mais um copo de nescau, ou de tequila, mais uma dose, mais pasta de dente, mais roupas, sabão em pó, mais energia elétrica, mais água, mais um mês de aluguel e outra prestação do carro, mais um filme na locadora ou no cinema, mais um livro, mais um prato de comida, mais créditos pro celular, mais shampoo, sabonete, papel higiênico, mais giletes pra barba, mais cds, mais uma caneta, cadernos, acesso à internet, mais um cafezinho, um misto-quente, uma bala, um doce, mais um baseado, uma cerveja, mais óleo, fluido e pastilhas de freio, pneus novos, lençóis, cobertores, casacos, mais um milkshake no bob’s, mais um doritos, mais uma coca-cola, mais uma escova de dentes, mais um tênis, meias, mais um miojo, um copo de chá mate, mais cordas de violão, mais um dia, uma noite…

Renovável

Ligando idéias
com fios remendados
temo o curto-circuito
sem estabilizador
variações de voltagem
positivo ou negativo
corrente neutra
minha energia
não vem de nenhuma usina
minha fonte de energia
é renovável,
sou eu mesmo,
que me renovo a cada dia.

Nada Além

Tenho que me livrar de velhos fantasmas.

Teias de aranha que insistem em ficar grudadas.
Pelos cantos. Todos os cantos.
Sanguessugas de vida e esperança.
Tenho que jogar toda essa tralha no lixo.
Tem horas que a reciclagem é impossível.
E mesmo que fosse possível, não seria aconselhável.
Tem horas que o melhor é deixar tudo pra traz mesmo.
Enquanto isso fica só a teoria, vivo nesse emaranhado.
Em meio a mil nós cegos.
Superbonder em lágrimas brilhantes.
Tudo bem meio a esse indescritível mozaico hipotérmico.
Quase congelante. Viagem no tempo, sempre pro futuro..
E os espirais na parede permanescem estáticos por alguns momentos.
É quando o limite entre o que eu quero que exista e o inadmissível se rompe.
E depois desse limite, lamento informa-lhes senhores passageiros, mas
depois desse limite, não há mais nada por ser observado…
nada além da vida, em sí e pura..
(11/6/7 - 19h46)

Empregado

Sente o cansaço!
a noite acordada
o trabalho cedo
despertador trim blip beeem
sono eterno (nem tanto..)
calor, sonhos,
vida, realidade.
Sonhos vivos e reais,
agora ou nunca.
Até amanhã e boa noite..
(6/1/2)

Salvação

Se a pinguela continuar escafindando, será preciso muita jugula ionante pra massertizar toda essa ilundescência. Porque o ilundescente sempre nos encaramalha da forma menos hidrófila possível, nos dando sempre o caminho em direção oposta à saída. Seguindo sempre à esquerda, milhoneros à frente do lago negro, você encontrará, retinindo e acalesta, uma placa com a indicação: “parafustro” Essa placa é, inorevisivelmente, nossa única salvação.

Seqüelas Mil

Minha cabeça pulula
e meu cérebro quase
que pula pra fora dela.
Nessas horas é foda
manter seu cérebro sob controle
(Já pensou na hipótese do meu
gato nunca ter existido?)
Muitos planos e sonhos.
Vivendo e vibrando.
Torcendo e esperando
que tudo dê certo.
Seqüelas mil, já viu…
É assim mesmo
em todo termo
nativo ou estrangeiro
agosto ou janeiro
raspada ou com pêlo
os últimos e os primeiros
sem sal ou com tempero
você vai ver…

Superpopulação

As estatísticas mostram
mas nem precisava ser mostrado
já ta mais do que na cara,
que o mundo tá muito lotado!

Prolapso

Que dia é hoje?
Tanto faz,
é hoje o dia
e aqui é o lugar
faça Sol ou faça chuva
seja dia ou noite
queira ou não queira
é tudo perda de tempo…

Gastronomia

Poesia descabida
Calabresa, apresuntado..
Toda a morte em nome
de um bife acebolado!
(2005)

Será?

Será que eu sou louco?
Será que eu fiquei louco?
ou será que é só alguma crise que dura a vida inteira?
Será que eu estou certo?
Será que é isso mesmo?
Será que não há loucura nenhuma nisso?
Sinceramente não sei. Sei que me sinto bem.
Tanto fazendo do jeito que parece louco,
quanto fazendo do jeito que parece careta.
Será que agente foi feito pra dormir todas as noites?
Será que isso é mesmo uma regra, um limite natural?
ou será que apenas acreditamos burramente nisso do
mesmo jeito que fazemos com tantas outras coisas?
Será que eu estou errado ao preferir do meu jeito?
Ou será que é isso mesmo e errada está a massa que
faz tudo como mandaram e escreveram nos manuais?
Será que vale a pena? Será que alguma coisa vale a pena?
Ou será que tudo isso é em razão de nada, ou seja, sem razão?
No que você prefere acreditar? Será que existe escolha?
Será que tudo que eu sei é fato? Ou será que, simplesmente,
eu estou enganado na maioria das coisas? Tem como saber?
Alguém sabe? Alguém sabe mesmo? Ou só acha que sabe?
Será que eu perdi o fio da meada? Ou será que na verdade
estou chegando exatamente onde eu queria chegar???

Raios

No mesmo lugar de sempre
aqui de cima das antenas
posso captar melhor o sinal
que viaja pelo universo
decifrar o código,
quem vai saber ao certo?
Não existe tempo, nem distância,
não existe o longe e o perto.
São só idéias na nossa cabeça
assim como tantas outras coisas
São só idéias na nossa cabeça..
E continuo, continuamente,
no mesmo lugar de sempre..
(14/12/5)

Maresias

O caos se desdobra,
surpreendentemente..
Máscaras caindo
Transparências, indecências
O ser humano num espelho
e por água abaixo algumas coisas.
Destroços, enfim. Monumentos de outrora.
Grande merda enfim, mas é claro
sempre nos resta a experiência.
Em sumo: Nada além da vida
aprendizados, erros, acertos, tentativas.
A esperança que lutou pra resistir
Uma gota d’água pingando após a outra
Incessantemente. No fundo da mente..
Perturbadoramente a uma hora dessas
Sirenes no filme da TV me acalmam
mostrando que tudo poderia ser pior
Mas não tem muito efeito
continuo de galho em galho
macaco dos pensamentos
saltando idéias, árvores,
penhascos, despenhadeiros,
um bêbado na corda bamba
sem cair, minutos, horas,
dias, toda uma ou duas vidas,
insetos no gramado, pedras,
folhas, arbustos, ervas-daninhas
e uma flor, transformada em duas,
no reflexo mágico da água empoçada..
(2/2/6)

No Fim

Anda,
mas não anda sem rumo certo,
tome logo uma atitude,
leve um pouco d’água pro deserto,
não espere que algo mude,
faça logo o que acha certo,
fique calmo, não se preocupe,
no fim vence o justo, não o esperto..
(30/3/3)

Despertar

O que é que te desperta?
me diz quem é você…
o que você prefere:
Despertador ou prazer?

Fusão

Olhe pra mim nesse caos atropelado,
afaste as cadeiras, tire tudo do caminho,
aí vem aquilo que sempre esperamos.
Um chiclete no cinzeiro, petróleo e fumaça.
Sempre é a hora certa pro que você quer.
Não vou ficar plantado como uma árvore..
Tenho raízes mas pretendo voar alto,
assim que eu me livrar de todas elas: as raízes…
Quero conhecer cada nada, cada espaço vazio,
cada molécula, átomo e todos os micróbios.
Me fez muito bem aquele período quando
morei numa colônia de micróbios.
(..uma coisa nunca não fiz mas ainda vou
fazer é deslizar, escorrer, derreter pelas paredes,
sempre vi as paredes derretendo e escorrendo
e sempre me dava vontade de ser a parede,
gostaria de experimentar, nem que fosse só
por uns 3000 anos.. é pouco tempo,
mas acho que já daria pra curtir…)

Macacos

O imprevisível. Sempre ele.
Sempre do mesmo jeito, sempre inesperado.
Olho essa vida que me circunda,
esse trama à qual estou indefinidamente atrelado.
Essa novela mal escrita e sem grandes emoções.
Esse drama sem sentido nem lógica.
Olho essa vida e demoro a identificá-la como sendo minha.
Mas sei, de antemão, que ela não é de mais ninguém, só minha.
Mas meu saber não passa disso.
Meu prazer também está todo depositado aí.
O resto, não sei se são escolhas, ou determinações..
O resto é o resto..
Determinações, escolhas, tudo grande merda.
Nada disso existe de verdade.
De verdade mesmo só existo mesmo eu e meu cigarro no cinzeiro.
Existe também esse texto que você lê.
Mas ele não existe de verdade, é pura invenção arbitrária..
Invenção levada pelo egocentrismo, egoísmo,
todos os esses ismos idiotas
que todo mundo que se acha importante carrega no peito.
Só o que existe é o céu, o Sol e as nuvens.
Claro, também existe o calor.
E esses existem totalmente de verdade.
Não tenho por onde ir.
Já passei por mais de mil atalhos.
Já me escondi atrás da moita.
Já me encontraram lá, acanhado, me encolhendo.
Já me suicidei umas quinhentas vezes, sem resultados satisfatórios..
Macacos resumem minha idéia de sociedade evoluída.
Macacos humanos ridículos, limitados.. Macacos como eu.
Aqui de cima,
a vista não é muito melhor que aí de baixo.
Tudo depende do olho de quem vê.
Macacos, só enxergam árvores e folhas.
De galho em galho,
a incerteza do cipó..
e a certeza dura do chão lá embaixo..
Primatas primários,
Primatas precários,
Primatas patéticos.
Já acostumado,
me olho no espelho
do meu banheiro.
E vejo um macaco e sua velha face,
com seus velhos pêlos.

Perda de Tempo

Às vezes a vida é uma grande perda de tempo. Nunca sabemos exatamente quando. É que geralmente achamos o que estamos fazendo útil, importante, necessário. Escrever por exemplo é algo totalmente útil, importante e necessário sendo que ao mesmo tempo, escrever é a maior perda de tempo que eu posso imaginar. E tudo é uma questão de ponto de vista. Ou melhor, uma questão de pontos de vista, no plural. São infinitos os pontos de vista observando algum fenômeno. Isso faz com que o fenômeno não seja apenas um, mas milhões, zilhões. Isso faz com que cada fenômeno não seja apenas ele em si mesmo, mas sim, as infinitas visões de cada um, a seu ponto. Criando assim um imenso emaranhado de pontos de vista. Tudo que não seja alimento, abrigo, amor, beleza ou criatividade, tudo que fugir disso é falso. É invenção. Mais ou menos como as regras do xadrez, pura invenção arbitrária e humana, imperfeita e tendenciosa. Tudo falso. Apenas o que nos traz amor, beleza, deleite, música, paz, criatividade, alimento e abrigo são coisas realmente necessárias.

Agregando

A vida
vivo
escrevo
vivo
escrevivendo
no caderno-mundo
vivendoideras
tentado a tentar
fazendoideras
sendoido
irremediavelmente
insanacesa
prasempresententandouvir
as minhasuasnossas vozes
gritandoideras
semfinanças
improvisadança
sem fim
(28/6/3)

Delírio n.2391

Tudo à volta, o ambiente,
posso descreve-lo como denso.
Ao entardecer, cores confusas.
Na verdade as cores são claras,
o confuso sou eu.
Sempre fui desde o princípio.
Levo minha vida sobre o fino fio do acaso.
Escorrego no chão ensaboado.
Descubro a inércia viva em mim.
Neste momento então a torre de celular me olha de canto.
Finjo que não vejo nada, continuo escrevendo.
O que ela não sabe é que eu já sei do seu plano.
Realmente eu não teria modo de saber se não fosse
a minha gata Dub ter me contado o que sabia.
Geralmente não dou importância pros miados
dos felinos, mas na gata Dub eu acredito.
Por isso já estou preparado pra qualquer movimento suspeito
da torre de celular que, a cada dia, parece estar
muito mais próxima da minha janela.
E olhando pro outro lado vejo milhões de brasileiros
com a camisa da seleção, bandeiras e soltando fogos
pro alto, não entendo o porque, já que o gol foi do adversário..
O telefone toca e tudo se perde num segundo.

No Oceano

“Nada como um dia após outro dia”
Nada como um café com leite
no estômago vazio.
Nada como a desconfiança
freqüente e total.
Nada como a falta de
assunto pra escrever.
Nada como uma baleia…